quinta-feira, 4 de julho de 2013

Cartografia da Leptospirose entre 2007 a 2009 em Belém/PA

Luiz Henrique Almeida Gusmão
* Geógrafo e Licenciado pela Universidade Federal do Pará (UFPA)
* Editor chefe e proprietário do Blog Geografia e Cartografia Digital de Belém
* Bolsista no Laboratório de Sensoriamento Remoto na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL)
* Instrutor dos softwares de Cartografia: Philcarto, Phildigit, Google Earth e Adobe Illustrator aplicado a Cartografia Temática
* Contatos: henrique.ufpa@hotmail.com ou luizhenrique.ufpa@yahoo.com
Mapas em Geral, Cursos, Cartogramas, Consultoria em Geotecnologias - (091) 98306-5306 (WhatsApp) 


1. INTRODUÇÃO


A cidade de Belém (PA) localiza-se às margens da Baía de Guajará e Rio Guamá, no estuário do Rio Pará, exatamente a 1 grau de 28' (S) de latitude e 48 graus e 29' (W), com uma altitude média de 5 m acima do nível do mar. Possui um clima quente e úmido, onde o índice pluviométrico fica entre 2.300 mm a 3.000 mm/ano e a umidade do ar alcança quase 90%, contribuindo para a alta incidência de pluviosidade, principalmente entre os meses de dezembro a junho. Em decorrência das condições climáticas propícias, do baixo investimento e eficácia em saneamento básico, da incompetência da Prefeitura em sanar problemas relacionados a ocupação desordenada e de poucos investimentos na área da educação e saúde para a população mais carente, ocorre frequentemente casos de Leptospirose em nossa cidade, atingindo principalmente a população residente em áreas alagáveis, sem a conclusão e ampliação efetiva de projetos de drenagem e de terraplenagem, suscitando na frequência desse mal.


2. MATERIAIS E MÉTODOS

Nessa postagem serão produzidos dois mapas temáticos com base no trabalho de conclusão de curso em Biomedicina intitulado: Leptospirose, um estudo epidemológico e aplicação de medidas preventivas em uma região do município de Belém (PA) de Renan Chaves de Lima defendido em 2009 na Universidade Federal do Pará. Com o auxílio do software francês de Cartografia Temática: Philcarto disponível em http://philcarto.free.fr/. O uso desse software foi utilizado para produzir os seguintes mapas: Espacialização dos casos de leptospirose entre 2007 a 2009 e a Incidência de leptospirose entre 2007 e 2009 para respaldar os comentários.


3. DESENVOLVIMENTO
3.1 Conceituação e causas da leptospirose


A leptospirose (In OMS, 1998), é uma antropozoonose causada por bactérias do gênero Leptospira. A doença ocorre amplamente em países em desenvolvimento como Brasil e Índia, onde constitui um problema sanitário de grande importância, não somente pela gravidade de sua patogenia, mas também como elemento potencial de contágio ao ser humano (ACHA & SZYFRES, 1986; WHO, 2003). É causada pela bactéria Leptospira eliminada principalmente na urina de roedores, permanece em coleções de água a espera da pessoa que nela adentre. Assim, as pessoas podem contaminar-se não apenas ao entrar em áreas urbanas alagadas pela chuva, como também em coleções de águas rurais em lagoas, represas e riachos, no qual a bactérica invade por pequenas lesões de pele ou pelas mucosas.



 Figura 1. Como se contrai e preveni a Leptospirose
Fonte: www.lookfordiagnosis.com

3.2 Leptospirose em Belém

Em Belém, a contração dessa doença ocorre principalmente através do contato com água contaminada pela urina de ratos nas redondezas das casas sem saneamento básico ou em locais onde os alagamentos são constantes, as chamadas "baixadas", sendo frequente nos bairros com essas características, conforme o (MAPA 01).

Mapa 1. Belém - Incidência e frequência de Leptospirose nos bairros entre 2007-2009



 * Não autorizo a utilização, modificação ou divulgação do mapa temático, antes da comunicação prévia com o elaborador Luiz Henrique Almeida Gusmão.
Fonte: GUSMÃO, L. H (2013)


Conforme o mapa 01, é possível afirmar que os bairros com maior frequência de casos de leptospirose entre 2007 a 2009 eram Terra Firme (18), Guamá (17), Jurunas (12), Cabanagem e Pedreira (11), onde a incidência foi considerada alta, estando destacados em vermelho. São bairros muito populosos que convivem com constantes alagamentos, péssimos sistemas de saneamento básico, obstrução constante dos canais por resíduos sólidos e dos esgotos a céu aberto. São bairros da periferia de Belém, onde uma parcela significativa dessa população, vive em moradias precárias e com baixos rendimentos.

Os bairros com incidência média (5 -l 8 casos), estão distribuídos de forma irregular pelo espaço, visto nos bairros: Cremação, Telégrafo, Sacramenta, Marambaia, Marco, Bengui, Parque Verde e Tapanã. São bairros da periferia iguais aos primeiros, com exceção do Marco, onde a situação de alagamento, precário sistema de saneamento básico e acúmulo de resíduos sólidos nas ruas também é comum em algumas partes dos mesmos.

Os bairros com baixa incidência (1  -l  4 casos), estão principalmente no Norte de Belém (Distrito de Icoaraci) e mal distribuídos no restante do espaço. Aparece até mesmo em alguns bairros nobres como Batista Campos, Campina e São Brás, com apenas 1 caso em cada.

A ausência da leptospirose nesse ano foi percebida nos bairros mais estruturados de Belém, no centro da cidade (Sudoeste), visto na Cidade Velha, Nazaré, Reduto e Umarizal, em consequência da localização em terrenos mais altos, menos sujeitos aos alagamentos e com rede de saneamento básico adequado. Porém, alguns bairros periféricos, apesar de desprovidos ou carentes redes de saneamento, também não registraram nenhum caso nesse período, destacando a porção Sudoeste e Oeste de Belém.


Algumas cenas nos bairros com grandes registros da doença são comuns, como o despejo indiscriminado de resíduos sólidos e líquidos nas ruas, canais e "valas", conforme a (FIGURA 01 e FIGURA 02):

Figura 2. Área propícia a proliferação da Leptospirose na Av. Fernando Guilhon (Jurunas)
Fonte: Panoramio

Figura 3. Área propícia a proliferação da Leptospirose no Canal do Tucunduba (Guamá)
Fonte: Panoramio

As péssimas condições de saneamento básico tem acelerado a disseminação e contágio pelas larvas leptospira, atingindo principalmente os mais pobres, por residirem nos bairros ou nas ruas carentes desse serviço público. Muitas vezes, essas pessoas não têm voz nos principais meios de comunicação dessa cidade. Outra insatisfação é que essa doença não é imprevisível, portanto a Prefeitura de Belém tem conhecimento sobre essa realidade e que uma população considerável de Belém, a mais pobre, tem altas chances  de contrair a Leptospirose, restando combater nos pontos mais críticos, conforme o (MAPA 02):


Mapa 2. Belém/PA - Nível de prioridade no combate a leptospirose


* Não autorizo a utilização, modificação ou divulgação do mapa temático, antes da comunicação prévia com o elaborador Luiz Henrique Almeida Gusmão.
Fonte: GUSMÃO, L. H (2013)



O mapa 02 nos mostra o nível de prioridade no combate a leptospirose em razão da frequência dos casos dessa doença. Percebe-se que a maioria das áreas prioritárias está no entorno do centro da cidade (Sudoeste) e as outras duas estão no norte. Em relação as áreas, destacam-se:

Área 1: Corresponde ao bairro do Guamá, Terra Firme, parte de Canudos e Universitário, com nível de prioridade MÁXIMA, por apresentar os maiores casos registrados da doença e portanto, estando mais vulneráveis. É notável que essa área é densamente povoada, principalmente por pessoas com baixo poder aquisitivo que convivem com precariedade de saneamento básico.

Área 2: Corresponde ao bairro da Pedreira, Sacramenta, Telégrafo e parte do Barreiro, com nível de prioridade MEDIANA, por ter sido registrado muitos casos de leptospirose, estando relativamente vulnerável. 

Área 3: Corresponde ao bairro do Jurunas, por apresentar sozinho muitos casos da doença, com nível de prioridade MÁXIMA, por ser muito populoso.

Área 4: Corresponde ao bairro da Cabanagem, Parque Verde, parte do Una e do Mangueirão, apresentando muitos casos de leptospirose, com nível de prioridade MEDIANA.

Área 5: Corresponde ao bairro do Tapanã, por apresentar razoáveis casos confirmados, com nível de prioridade MEDIANA.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os mapas nos revelam a situação da Leptospirose em Belém, no qual os bairros mais populosos e pobres da cidade estão mais sujeitos a doença como Guamá, Jurunas, Terra Firme, Cabanagem e Pedreira, onde a incidência é alta, evidenciando aonde a Prefeitura de Belém deve atuar mais rapidamente, no sentido de atenuar esses casos, através do aceleramento e da efetivação dos projetos de saneamento básico. É evidente que os bairros de classe média e alta da cidade quase não existe caso de Leptospirose, resultado de políticas públicas mais efetivas nos mesmos. Clamo para a atual gestão da cidade de Belém, um compromisso sério e justo na democratização do abastecimento de água potável, o manejo de resíduos sólidos, controle de agentes e pragas patogênicos, na coleta e tratamento de esgoto e limpeza urbana, principalmente daqueles mais necessitados que muitas vezes, não têm os seus direitos de cidadão contemplados, mas que são procurados na época de eleição.




5. REFERÊNCIAS

ACHA, P.N & SZYFRES, B. Leptospirosis - Zoonosis y enfermedades transmisibles comunes al hmbre y a los animales. Organizacion Panamericana de la Salud. Washington, 1986.


Lima, C. Renan. Leptospirose, um estudo epidemológico e aplicação de medidas preventivas em uma região do município de Belém (PA). (Trabalho de Conclusão de curso em Biomedicina). UFPA. 2009.



http://www.panoramio.com. (Acesso em 03/07/2013)

Software Philcarto. Disponível em http: philcarto.free.fr.