quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Análise da Distribuição das Praças de Belém/PA usando Geotecnologias

O uso do software Philcarto e do Google Earth na análise da distribuição das praças nos bairros de Belém/PA




Luiz Henrique Almeida Gusmão
* Geógrafo e Licenciado pela Universidade Federal do Pará (UFPA)
* Editor chefe, proprietário e Cartógrafo - Blog Geografia e Cartografia Digital de Belém
* Bolsista CNPq - DTI (Desenvolvimento Tecnológico Industrial) no Laboratório de Sensoriamento Remoto na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Amazônia Oriental)
* Instrutor dos softwares de Cartografia e Geoprocessamento: ArcGis, Philcarto, Phildigit, Google Earth, QGIS e Adobe Illustrator aplicado a Cartografia Temática
* Contatos: henrique.ufpa@hotmail.com ou luizhenrique.ufpa@yahoo.com
*Mapas, Cartogramas, Cursos, Palestras e Consultoria em Geotecnologia:  091 (98306-5306) - WhatsApp


1. INTRODUÇÃO


Esta postagem tem o propósito de realizar uma análise espacial das praças nos bairros de Belém, assim como discutir a importância desses espaços como pontos de práticas sociais, manifestações culturais e esportivos, assim como de convívio social. Entre os objetivos propostos estão a produção cartográfica do índice Área de praça em (m2) por habitante nos bairros, da situação dos bairro em relação ao índice (Área.pça em m2/ Habitante) e a localização dos "Hotspots" da carência de praças, como forma de propiciar o planejamento urbano nesse aspecto, buscando minimizar a discrepância entre os bairros produzido pela Prefeitura de Belém.

Palavras-chave: Belém. Praça. Bairros. Philcarto. Google Earth.


2. MATERIAIS E MÉTODOS  

Com base nas imagens de satélite de alta resolução espacial do Google Earth foi identificado as praças nos bairros da cidade. A revisão bibliográfica em LAMAS (2000), VIERO (2009) e MENDONÇA (2000) sobre a praça como espaço público e sua importância socioespacial; a extração de informações sobre praças por habitantes com base no IMAZON (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e consequentemente a produção de mapas temáticos com o software Philcarto com o método coroplético e corocromático.


3. DESENVOLVIMENTO
3.1 Definições do conceito de praça

A praça é o lugar intencional do encontro, de práticas sociais, de manifestações de vida urbana e comunitária (MENDONÇA, E. apud LAMAS, 2000). Esse espaço é recordado por muitos como ponto de encontro da infância, onde brincava-se com os balanços, gangorras, escorregadores, patinetes, bicicletas, patins, skates, entre outros, enquanto na adolescência, era lugar de ponto de namoro ou de encontro com os amigos após a escola. Na fase adulta, é lembrando como espaço em que se levam os filhos, sobrinhos e primos para passear, brincar e comer; ponto de manifestações culturais como o Arrastão do Pavulagem, de manifestações políticas como o Passe Livre, "Brasil sem corrupção", Movimento LGBT; da prática de atividades físicas, entre outros. Enfim, todos nós temos recordações de algum modo desse espaço que fez ou faz parte da nossa vida.

Conforme o IMAZON (2007), as cidades mais aprazíveis são aquelas que reservam amplos espaços do seu território para as praças. Isso porque as praças têm um papel essencial nos centros urbanos ao proporcionar lazer, espaço para atividades culturais e esportivas, e oportunidades para o sossego e contemplação.

Segundo (MENDONÇA, E. apud CASSETI, A. 1995), a praça é considerada desde sempre, como âmbito da visibilidade, onde aparecer significa existir na qualidade de ator social. Em Belém, na "época áurea da borracha na Amazônia", era espaço por onde as elites desfilavam com trajes finos "la francesa". Hoje é considerado como espaço das multiterritorialidades, onde de acordo com o horário e o dia, os sujeitos sociais são diferenciados, como famílias; "Tribos urbanas" como "rockeiros", "reggaeiros", "metaleiros", mendigos, feirantes, ambulantes, entre outros. Muitas vezes, há uma coexistência entre esses sujeitos sociais, dependendo muitas vezes da praça. Nesse sentido, a praça pode ser definida, de maneira ampla, como qualquer espaço público urbano, livre de edificações, que propicie convivência e/ou recreação para os seus usuários (MENDONÇA, E. apud VIERO, 2009).

As praças são espaços livres, haja vista, nos dias de hoje serem vista pela maioria da sociedade como espaços abandonados, de mendicância, ponto de drogas e até mesmo de prostituição (MENDONÇA apud CHIES, 2000). Em Belém, as praças localizadas no centro da cidade em sua maioria tem uma manutenção razoável e esporádica, principalmente a Praça da República, Batista Campos, Frei Caetano Brandão, enquanto outros estão mal cuidadas, como a Praça D.Pedro II, Felipe Patroni, Brasil, no qual muitas vezes só são "cuidadas" após reclamações constantes pelos meios de comunicação ou por agentes comunitários. No entanto, muitos bairros da cidade nem praça existe e são aqueles, em sua maioria, em bairros periféricos e pobres da cidade, no qual as famílias têm que se deslocar até o centro da cidade para usufruir de um espaço público igual a esse.


3.2 A situação das praças na Belém Continental

Em 2004, Belém possuía 47 bairros com praças e 24 sem praças, porém a qualidade das áreas verdes nessas praças é considerada ruim, pois apenas 34% se mantêm conservados, possuindo ainda 49% de espaços sem jardinagem, 5% sem áreas verdes e 12% abandonadas (IMAZON, 2004). Quanto aos equipamentos como bancos, coretos, brinquedos, postes, gramado, etc, a pesquisa constata que quase a metade deles (48%) está depredada ou inutilizada (38%) (IMAZON, 2004). 

Para o IMAZON (2004), a péssima condição das praças em Belém e na Região Metropolitana de Belém é reflexo do crescimento urbano desordenado, que invade as áreas verdes, diminuindo a qualidade de vida da população. Nesse caso, destaca-se também a falta de planejamento público no setor de áreas verdes e recreação nos bairros pela Prefeitura de Belém, assim como a demora na manutenção das existentes.

As praças significam dar à população um espaço para lazer e prática esportiva, o que resulta em uma diminuição da violência e melhoria na saúde. (IMAZON, 2004). As praças não cuidadas são lugares propícios a prática do consumo de drogas, de pequenos delitos e outros crimes, como visto em algumas da capital paraense, assim como em outras cidades do Brasil.

Na tentativa de revelar índices relacionados as praças por habitante (Pça/Hab), área de praça por habitante (m2/hab), índice da área de praça por bairro (Área pça/Área bairro) para o ano de 2010 em Belém, acabei sendo surpreendido por não ter informações no site da prefeitura e pelos órgãos competentes como FUNVERDE e SEMMA, por isso os mapas foram baseados nos dados disponíveis pelo IMAZON (2006), os "mais recentes".

Com base nos dados disponíveis do IMAZON (2006), sobre a distribuição de metros quadrados (m2) de praça por habitante nos bairros de Belém, foi produzido um mapa temático com o software Philcarto com o método coroplético.


Mapa 01. Belém Continental - Área de praça em m2 por habitante nos bairros em 2006 pelo Philcarto



* Autorizo a utilização e a reprodução desde que a fonte seja citada e nenhum elemento modificado
Fonte: Luiz Henrique Almeida Gusmão (2013)

Segundo o mapa acima, podemos perceber como está distribuída a área de praça em m2 por habitantes nos bairros de Belém em 2006, no qual o que apresenta o melhor índice é a Campina, com mais de 5 m2 de praça por habitante, sendo sede das praças mais tradicionais e frequentadas da cidade, como República, Sereia, Waldermar Henrique e BandeiraEm seguida, entre os melhores bairros estão: Cidade Velha e Souza. O primeiro também possui praças famosas como D. Pedro II, Frei Caetano Brandão, Carmo e Felipe Patroni. É notável a abundância desses espaços nos bairros centrais da cidade, por serem moradias de classe média e classe alta, além de serem resquícios da colonização portuguesa nos primeiros bairros da cidade conjuntamente com igrejas católicas. 

Entre 1 e 2 (m2) de praça por habitante, destacam-se os bairros centrais: Batista Campos Reduto; Bairros com grandes áreas militares: Miramar e Val-de-Cans; Bairros distante do centro com praças enormes: Maracangalha e Coqueiro. O índice confortável de alguns bairros se deve a uma pequena população e portanto, usufruto das praças tais como Miramar e Val-de-Cans. 

Com um índice de até 1 (m2) de praça por habitante e portanto ruim, estão a maioria dos bairros de Belém, na região centro-sul, noroeste e oeste. Em relação aos bairros, destacam-se: Jurunas, Condor, Guamá, Terra Firme, Canudos, São Brás, Cremação, Nazaré, Umarizal, Fátima, Marco, Pedreira, Telégrafo, Sacramenta, Marambaia, Castanheira, Mangueirão, Bengui, Pratinha, Parque Verde, Curió-Utinga, Tapanã, Tenoné, Paracuri e Cruzeiro. Neste grupo estão bairros pobres, de classe média, de classe alta, centrais, próximos ao centro e periféricos, nos confirmando que as áreas destinadas ao lazer através das praças estão cada vez mais escassas em várias partes da cidade.

Muitas vezes, a praça é um dos únicos locais de lazer de famílias mais pobres, no qual a sua ausência é mais sentida nos bairros periféricos da cidade do que aqueles centrais, principalmente condicionado pelas opções de lazer que a condição financeira de um grupo familiar pode proporcionar. Nesse caso, tais áreas devem ser ampliadas principalmente na periferia de Belém, no qual o poder público tem obrigação de construir, arborizar e ampliar esses espaços.

Os bairros sem praça de Belém estão essencialmente na região norte (Distrito de Icoaraci) e na região sudeste (Parte do Distrito do Entroncamento). Em relação aos bairros, destacam-se: Universitário, Barreiro, Aurá, Águas Lindas, Guanabara, Una, Cabanagem, São Clemente, Parque Guajará, Águas Negras, Maracacuera, Agulha, Campina de Icoaraci e Ponta Grossa. Neste grupo, todos são distantes do centro da cidade entre 4 a 25 km ou 40 minutos a 1h e 30 m, também são bairros com predominância de uma população com baixo poder aquisitivo, vivendo entre 1/2 a até 2 salários mínimos, com difícil acesso ao centro e poucas opções de lazer nas redondezas. 

Houve uma classificação dos 48 bairros da área de estudo de acordo com a disponibilidade de área de praça em (m2) por habitante, sendo enquadrados nas seguintes categorias: Muito confortável; Confortável, Razoável, Crítico e Crônico, com o método corocromático pelo Philcarto.



Mapa 02. Belém continental - Situação da área de praça por habitantes nos bairros em 2006 com "hotspots" 


Fonte: O autor (2013)


O mapa acima revela a situação da área de praça por habitante nos bairros de Belém em 2006, no qual a maioria se enquadra em estado crítico, pela baixa oferta (Até 1 m2) de espaços livres como praças e largos. 

Destacam 14 bairros em situação crônica, onde não há praças e portanto, onde a Prefeitura de Belém deve atuar mais urgentemente para solucionar tal problema, os chamados "Hotspot" (Hot = Quente; Spot = Ponto, ou seja, área prioritária de atuação), como na Área 1: Norte de Belém, especialmente em Icoaraci; Área 2: Nos bairros Águas Lindas, Aurá e Castanheira; Área 3: Bairro da Cabanagem e Una; Área 4: Bairro São Clemente e na área 5: Bairro do Barreiro. As imagens a seguir são apenas ilustrativas para haver a localização das áreas.

Figura 01. Área 1: Bairros de Icoaraci


Fonte: Google Earth (2013)

Figura 02. Área 2, bairros: Guanabara, Águas Lindas e Aurá


Fonte: Google Earth (2013)


Figura 03. Área 3: Bairro da Cabanagem e Una


Fonte: Google Earth (2013)


Figura 04. Área 4: Bairro São Clemente


Fonte: Google Earth (2013)


Figura 05. Área 5: Bairro do Barreiro


Fonte: Google Earth (2013)


Acima estão as principais áreas da cidade que a Prefeitura de Belém tem mais do que obrigação construir praças, arborizá-las e assim, democratizar as áreas livres destinadas ao convívio social, prática esportiva e brinquedos públicos. Tais áreas fazem parte da chamada periferia de Belém, onde a ocupação desordenada não foi acompanhada de políticas públicas pela Prefeitura, porém a mesma tem o propósito de contornar tal situação, é necessário apenas vontade política, pois seus moradores estão cansados de promessas políticas durante as eleições nessa cidade por diversos prefeitos e partidos políticos.

Em outro extremo, cerca de 6 bairros estão em uma situação razoável: Batista Campos, Reduto, Val-de-Cans, Miramar, Maracangalha e Coqueiro. Já a Cidade Velha e o Souza gozam de uma situação confortável, enquanto o bairro da Campina está enquadrado em muito confortável, contrastando com a maioria dos bairros da cidade, como podemos ver abaixo:

Figura 06. Bairro da Campina destacando as praças em verde


Fonte: Google Earth (2013)

Situação e quantidade dos bairros de Belém em relação a Área de Praça/Habitante (2006)


Fonte: IMAZON (2006)
Org. Luiz Henrique Almeida Gusmão

Cerca de 81% dos bairros de Belém está entre o crítico e o crônico, tornando-se muito preocupante. Entre 2006 a 2013, poucas praças foram reformadas, e construídas (Nos bairros centrais), porém tais informações não estão disponíveis ao público em geral. É claro que os índices em alguns bairros variaram, mas foi pouco significativo, já que tais bairros mostrados ainda permanecem sem suas áreas livres.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A distribuição das praças públicas em Belém muito desigual, no qual poucos bairros centrais gozam de considerável espaço para a prática esportiva, cultural, contemplação da natureza e portanto, lazer, enquanto outros não têm este direito garantido, contribuindo no deslocamento de centenas de pessoas para as áreas centrais, como para a Pça. República, Pça. da Sereira e Waldemar Henrique (Bairro: Campina); Pça. Batista Campos (Bairro: Batista Campos); Pça. Frei Caetano Brandão, Carmo e D.Pedro II (Cidade Velha). Muitos  bairros da cidade mal tem uma "pracinha" ou por causa da rápida ocupação espontânea ou pela supressão desses espaços por avenidas, edifícios e outras construções, restando a busca por opções de lazer pago ou caseiro. É necessário a Prefeitura de Belém expandir tais áreas, principalmente nos bairros mais carentes e afastados do centro, e assim democratizar as praças, contribuindo para a sua conservação, limpeza e de estímulo ao seu uso.


5. REFERÊNCIAS

FIGUEIREDO, S. de L; BAHIA, M.C. A privatização do público: áreas verdes e espaços de lazer em Belém/Brasil. NAEA. UFPA. 2008. Disponível em <http://www.ufpa.br/naea/siteNaea35/anais/html/geraCapa/FINAL/GT11-89-1103-20081123135431.pdf>. Acesso em 09/11/2013.

MENDONÇA, E. M. de S. Apropriações do espaço público, alguns conceitos. UERJ. 2007. Disponível em <http://www.revispsi.uerj.br/v7n2/artigos/pdf/v7n2a13.pdf>. Acesso em 01/11/2013.

NETUNO, L, et. al. Belém Sustentável 2007. Belém. Instituto do Homem e do meio ambiente da Amazônia 2008. Disponível em <http://www.bibliotecaflorestal.ufv.br/bitstream/handle/123456789/3468/Livro_Belem-sustentavel-2007-IMAZON.pdf?sequence=1> Acesso em 10/11/2013. 

IMAZON. Instituto do homem e do meio ambiente da Amazônia. Disponível em< http://www.imazon.org.br/publicacoes/livros/belem-sustentavel-1. Acesso em 06/11/2013.

IMAZON. Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia. <http://www.imazon.org.br/publicacoes/livros/copy9_of_Figura9.JPG/image_view_fullscreen>Acesso em 05/11/2013


Software Philcarto. Disponível em http://philcarto.free.fr

Software Google Earth. Disponível em http:googleearth.com

WebGIS. Google maps. Disponível em http:googlemaps.com